Cotidiano

Novo golpe do ‘Boa Noite, Cinderela’ usa droga para cavalos em São Paulo

Nelson (nome fictício), vítima do golpe 'Boa Noite, Cinderela' na região central de São Paulo - Arquivo Pessoal

Quando Jô acordou na praça da República, centro de São Paulo, não lembrava seu nome ou o que estava fazendo ali na manhã de um sábado recente.

E, mesmo que o publicitário de 30 anos tivesse no bolso o celular, que havia sido subtraído por ladrões, não teria achado nele muita informação: as mesmas pessoas que haviam feito transações de R$ 40 mil com seus cartões de crédito e de débito durante a madrugada também haviam mudado as senhas das suas redes sociais, como Facebook, do seu e-mail e do iCloud, sistema de armazenamento remoto de arquivos.

Enquanto subia a avenida Angélica coberto por seu próprio vômito, já que não tinha dinheiro para pegar um táxi, Jô começou a se lembrar da noite anterior. Estava na calçada em frente a uma casa noturna da República até que um homem puxou papo. Aceitou uma cerveja do desconhecido e, depois dos primeiros goles, perdeu a consciência.

Ele foi uma das vítimas de um golpe, o “Boa Noite, Cinderela”, em que sedativos são colocados na bebida da vítima. Nos últimos meses, jovens frequentadores de festas do centro passaram a registrar casos do crime, até então mais ligado a casas noturnas caras de bairros nobres.

Ao registrar o boletim de ocorrência, Jô fez um exame toxicológico do IML, que apontou dois tipos de cetamina em sua corrente sanguínea.

O anestésico usado em cavalos tem em humanos o efeito de induzir um transe, em que a pessoa fica desperta e capaz de se comunicar, ainda que sem memórias do que ocorre durante a sedação.

Após trocar as trancas de casa (os ladrões tinham ficado com a chave e o endereço), cancelar os cartões, o chip do celular, conseguir reaver as senhas das redes sociais e passar algumas noites acordando em sobressalto, Jô começaria uma segunda jornada: tentar reaver o dinheiro.

O banco alegou que, como as transações haviam sido feitas com uso da senha, não eram consideradas atípicas. Jô então solicitou ao Banco Central uma lista dos destinatários das remessas de dinheiro, feitas na madrugada.

Recebeu nomes como a Distribuidora Lopes, para onde foi uma das remessas de R$ 4.000 ou mais, e que tem como endereço registrado um prédio residencial na Luz. O porteiro disse à reportagem que não há nenhuma empresa funcionando ali.

“São empresas-fantasma e as transferências foram feitas no meio da madrugada”, diz Jô. Outras vítimas narram se lembrar de terem sido levadas para carros, onde haviam maquininhas de cartão nas quais eram induzidas a digitar suas senhas.

O Itaú Unibanco afirma em nota que utiliza “todas as ferramentas disponíveis para orientar clientes a se protegerem contra fraudes”. Cada caso é “analisado cuidadosamente, levando-se em conta detalhes das transações e as circunstâncias em que elas ocorreram”, afirma o banco, que orienta os clientes “a não compartilharem senhas e dados pessoais com terceiros”.

CAMPANHA

Jô é um nome fictício, como todos os demais que aparecerão nesta reportagem. Um sentimento comum entre as vítimas ouvidas é de vergonha. Uma delas não registrou o caso na polícia, e os demais só contaram a desventura para o delegado e para amigos mais próximos.

Nelson, que trabalha numa empresa de comunicação, foi acordado por uma moradora de rua a dois quarteirões de onde foi abordado por dois homens, com quem conversou enquanto estava do lado de fora da boate L’Amour.

“Eu não bebi nada que eles tenham oferecido. Desconfio que tenham colocado algo na minha cerveja”. O desfalque foi de R$ 9.000 e um celular. Ficou semanas ressabiado, sem conseguir sair à noite. “É uma violação bem grande, você se culpa no começo”, diz ele, quatro meses depois.

O arquiteto Carlos estava saindo da boate A Loca, na rua Frei Caneca, quando foi parado por uma roda de três desconhecidos, que o chamaram para tomar catuaba.

Acordou sete horas depois na avenida Nove de Julho, com R$ 7.000 a menos na conta. Ele agora negocia seu apartamento e planeja uma mudança para o Canadá: “São Paulo me venceu. É impossível ficar em guarda durante as 24 horas do dia”.

A Polícia Civil reconhece o problema, e afirma que “investiga todos os casos que são registrados” e que trabalha no centro “para identificar e prender suspeitos de cometerem este tipo de crime”.

Nas últimas semanas, agentes do 78º Distrito Policial, nos Jardins, prenderam um homem que foi reconhecido por vítimas. “A equipe de investigação da unidade está em busca de outras vítimas que reconheçam o suspeito”, diz a polícia, que afirma ainda cruzar informações de várias delegacias, na tentativa de encontrar outros golpistas.

Festas da região estão se unindo para lidar com o risco. A Tenda, que acontece mensalmente na rua Bento Freitas, já lançou uma campanha advertindo seus frequentadores sobre o golpe.

Um clubber que frequenta a festa posou para cartazes, colados pelo centro, e para um GIF (imagem animada) para ser compartilhado nas redes sociais. “No fim, é lembrar que devemos tomar cuidado com os nossos copos e não aceitar bebida de estranhos”, diz o DJ Tiago Guiness.

“Nada novo. Mas talvez seja necessário relembrar.”

Folha de S.Paulo

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