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Conheça o fenômeno “idol”, as novinhas que cantam para quarentões no Japão

Reprodução

Elas são adolescentes que se vestem de forma sensual, às vezes com biquíni e uniforme escolar. Cantam pop japonês e geralmente são seguidas pelos fãs mais dedicados do mundo. Coisa de jovem? Pelo contrário. Na plateia, homens de 30, 40, até 50 anos, frustrados com a vida e o trabalho, se debatem com um único objetivo: louvar as estrelas e seu insondável ideal de “pureza”.

O ápice desse estranho envolvimento se dá durante o encontro com as meninas, quando eles enfim podem apertar as mãos das cantoras. Em pleno século 21, o contato físico ainda é tabu no Japão. “Quero proteger minha inocência até que eu deixe meu uniforme escolar para trás”, canta uma dessas giril bands, conhecidos nacionalmente como “idols”.

Elas são objeto do documentário “Tokyo Idols”, uma das novidades do catálogo da Netflix. Dirigido pela japonesa Kyoko Miyake, o filme acompanha o dia a dia da “lolita” Rio, uma adolescente de 19 anos que vê no fã uma espécie de “filho”, e não importa se ele tiver o dobro de sua idade.

A olhos ocidentais, e descontando aí aspectos socioculturais, a relação das idol com o público pode parecer extremamente bizarra, beirando o doentio. As meninas podem ser escolhidas em concursos promovidos em grandes estádios japoneses, exibidos em rede nacional. Há grupos de vários estilos e gêneros, até de heavy metal, como o popular Babymetal.

Origem

O fenômeno “Idol” surgiu no Japão nos anos 1970, com a popularidade do filme francês “Cherchez l’idole” (“À Procura do Ídolo”, de 1964), estrelado pela atriz Sylvie Vartan. Mas a moda só pegou mesmo nos anos 1990. O filme relaciona a tendência à crise econômica japonesa dos anos 1990, que fez a autoestima do homem japonês, tradicionalmente baixa, cair ainda mais. “Há semelhanças entre a Londres dos anos 70 e a Tóquio atual. A economia estagnou e o cenário cultura morreu. As pessoas procuravam por algo novo. Londres inventou o Sex Pistols. E a resposta japonesa foi a cultura idol”, diz no filme o especialista Akio Nakamori.

Quem são as meninas

Elas são escolhidas pela voz e aparência física em agências de talentos. Precisam estar na adolescência ou início da vida adulta e aparentar “pureza”. A carreira é curta. Geralmente termina quando chegam à maioridade. Para muitas, é uma forma de iniciar a carreira artística. Além de cantar, uma idol tem de desempenhar atividades públicas na televisão, internet e publicidade. O formato guarda semelhanças com o dos concursos de miss. A maior banda idol do Japão, a AKB48, promove grandes eleições anuais para renovar suas integrantes. Trata-se de uma cultura machista, que objetifica a figura feminina em vários níveis, e, ainda assim, “é o único lugar em que mulheres são protagonistas no Japão”, afirma uma jornalista japonesa entrevistada no documentário.

Quem são os seguidores

É a parte mais estranha. Apesar da postura infantilizada das cantoras, seus seguidores são principalmente homens na casa dos 30, 40 anos e até 50 anos. E o filme acompanha parte da rotina de alguns deles. Muitos ali perderam namorada, emprego ou estão frustrados com a vida profissional. É o caso de Koji, de 43 anos, seguidor mais dedicado da cantora Rio, que diz se espelhar no sucesso da jovem. Outro fã ainda mais velho, um funcionário do setor de transportes Mitacchi, revela gastar pelo menos 220 mil ienes (cerca de R$ 6.400) por mês para seguir o grupo P.IDL. “Talvez elas estejam conquistando o que não pude. Não quero me tornar uma idol, mas fracassei em tantas coisas…”, lamenta Koji.

Torcida organizada

Para apoiar as Idols, os fãs confeccionam uniformes, fazem peregrinações para ver shows e, para fazer bonito frente às meninas, se reúnem e ensaiam coreografias. É uma relação de adoração e fetiche, não precisamente sexual, que se assemelha à das torcidas (asiáticas) de futebol. “Na vida, um homem pode se sentir incompetente. Mas, em uma apresentação idol, ele sente que está lutando com as garotas contra o sistema, Ele tem um sentimento de solidariedade”, diz o compositor de música Idol Hyadain. “Os homens japoneses sempre valorizaram a pureza das mulheres. Agora a cultura Idol se alimenta disso. Adoração da virgindade.”

Aperto de mão é quase sexo

Em plena era digital, o CD ainda consegue sobreviver no Japão. E, em parte, isso se deve às idols. Há grupos que condicionam a entrada nos shows e o encontro com as cantoras (o famoso “meet & greet”) à compra dos álbuns. Nesses eventos, nada de abraço nem selfie. O ápice do fanatismo é o momento de aperto de mãos, onde os marmanjos se sentem amados recebendo perguntas como “como vai você?”. “Historicamente, um aperto de mãos é um gesto muito sexual, O toque era proibido. Apenas nas últimas décadas que o aperto de mão passou a ser aceito. Do ponto de vistas das artistas, parece algo muito inocente. Mas, para os fãs, provavelmente há um aspecto sexual”, afirma o analista de economia e indústria Masayoshi Sakai.

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